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CONTATO

Laguna respira história

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Enviado por Rogério Monteiro em 06/06/1997

Texto original: Rogério Monteiro
Adaptação: Letícia de Assis

A cidade já foi fronteira entre impérios, palco de lutas entre republicanos e monarquistas, berço de heróis. Hoje encontra no turismo a ligação entre passado e futuro.

    Dois mundos convivendo em harmonia, divididos por um clima volúvel. Assim é hoje Laguna, 126 km ao sul de Florianópolis. Uma cidade que no verão triplica sua população com o turismo atraído pelo casario colonial, lindas praias e um Carnaval animado. O sol traz agitação e dinheiro, surgem por todo lado barzinhos, fliperamas e sorveterias. Os hotéis lotam. Mas é no inverno, quando o inclemente vento sul esvazia as praias, que a cidade revela-se em toda a sua essência. Telhados coloniais limosos, prédios ancestrais e ruas estreitas resgatam episódios marcantes da História do Brasil e nos fazem voltar no tempo.
    O verão é o oxigênio que mantém Laguna viva o resto do ano. Dos prédios históricos para as 12 praias. Na do Mar Grosso, hotéis para todos os bolsos dividem espaço com outros negócios de verão, biquinis e pranchas de surf colorem o calçadão, trios elétricos animam o Carnaval. As praias do Gy, Mar Grosso, Itapirubá e até mesmo as que rodeiam o Farol de Santa Marta enchem-se de gente, apesar da balsa e dos 17 km de estrada de chão. A rotina do centro histórico muda com a invasão dos ônibus de turismo e das máquinas fotográficas que tentam aprisionar séculos nos ângulos que enquadram  os 600 prédios tombados pelo Patrimônio Histórico Nacional.

Base do expansionismo

    A península onde se situa Laguna foi referência básica para o Tratado de Tordesilhas, no qual portugueses e espanhóis dividiram em 1494 terras que ainda nem conheciam, mas a cidade só foi fundada pelos bandeirantes do capitão Domingos de Brito Peixoto em 1676. A partir daí firmou-se por ser o último porto seguro ao sul da costa brasileira.
    A necessidade cada vez maior de braços que produzissem alimentos provocou maciça imigração de açorianos para a região. A cidade cresceu muito a partir do século XVII, mas cresceu também a insatisfação com o Governo Imperial, alheio às necessidade sociais e econômicas da região.
    Por insatisfação os lagunenses apoiaram a República Farroupilha, proclamada pelos gaúchos em 1836. Com o porto de Rio Grande ocupado pelas tropas imperiais, os separatistas de Bento Gonçalves buscaram em Laguna um porto marítimo fundamental para a sobrevivência da revolução. Giuseppe Garibaldi arquitetou um audacioso plano e levou a “esquadra” farroupilha por terra da Lagoa dos Patos até o mar, surpreendendo o inimigo.
    Os farroupilhenses receberam apoio popular em Laguna, onde em julho de 1839 foi proclamada a República Catarinense, também conhecida como Juliana. Foi quando o Governo Imperial decidiu dar um basta às pretensões republicanas e enviou novas tropas e vários navios de guerra. A República dos 100 dias, como ficou conhecida a efêmera emancipação lagunense, acabou em 15 de novembro, com a frota farroupilha sendo derrotada pelos imperiais e os gaúchos batendo em retirada.
    Neste episódio nasceu o mito de Anita Garibaldi, até hoje venerada em Laguna como a “heroína de dois mundos”. Ela vivia a vida caseira das mulheres do interior, inclusive tendo casado por imposição paterno, até conhecer Garibaldi. Apaixonada, trocou a letargia de Laguna pela vida aventureira ao lado do companheiro italiano. Após uma trajetória de guerras no Sul do Brasil, Uruguai e Itália, morreu em 1849 aos 28 anos de idade.

Rica arquitetura

    O passado continua intacto no casario da Laguna antiga, nas vielas estreitas onde – principalmente no inverno – pode-se com um pouco de imaginação ouvir o tropel dos farroupilhas e o troar dos canhões. O antigo paço municipal, com a casa onde funciona hoje o Museu Anita Garibaldi, a estátua da heroína e as casas que a cercam formam um conjunto arquitetônico belíssimo. Construída por escravos em 1747, o prédio do museu foi sede da República Juliana e hoje guarda peças arqueológicas encontradas nos sambaquis da região, além de objetos relacionados com o passado histórico da cidade.
    O conjunto formado pela Casa Pinto de Ulysséa e a Fonte da Carioca é outro ponto turístico importante da cidade. A casa – construída em 1867 – é réplica de uma quinta portuguesa, recoberta de azulejos decorados. Ao seu lado, a Fonte da Carioca perdeu bastante da sua identidade com o passar dos anos, mais ainda mantém sua mística, local de encontro e abastecimento de água da população da cidade.
    Completando os referenciais históricos de Laguna estão a Igreja Matriz, contruída e estilo Toscano, que abriga um grande tabernáculo folhado a ouro e a Imaculada Conceição pintada por Victor Meirelles em 1856; o marco geográfico do Tratado de Tordesilhas; e a Casa de Anita, pequeno museu com objetos pessoais da heroína e das lutas das quais participou.

Farol de Santa Marta

    O cenário é cinematográfico. Dunas de areia branca margeiam a estrada de terra que oscila pelo nada, escolhendo o caminho como uma serpente vagarosa. Uma fina cortina de areia soprada pelo vento torna diáfana a imgem do farol. É o Farol de Santa Marta, o maior das Américas e terceiro do mundo em alcance visual. Distante 17 km do centro de Laguna, via balsa e estrada de chão, o farol é uma das maiores atrações turísticas do município.
    Construído por franceses em 1891, como uma argamassa feita de pedra, areia, barro e óleo de baleia, ainda mantém as lentes originais no alto dos 142 degraus que levam à torre. Lentes que ampliam os lampejos de luz que alcançam 92 km de distância e orientam os navios que se aproximam do cabo de Santa Marta. Quando a Marinha permite o acesso à torre, descortina-se de lá uma vista soberba: as praias do Farol, Santa Marta, Cardoso, Cigana e Camacho, formações de pedra e esguichos de espuma. Ao fundo, a cidade de Laguna e o continente. Uma visão difícil de esquecer.